quarta-feira, 12 de julho de 2017

Uma mesa de café, Uma sala cheia de teias de aranhas e as Férias de Verão


DOCUMENTO “DE TRABALHO”: o prometido é devido.

Uma mesa de café, Uma sala cheia de teias de aranhas e as Férias de Verão

No final de mais um ano lectivo, e ao olhar para trás, apeteceu-me fazer um género de balanço, após mais uma reunião, à mesa dum café, da “associação” (esse bicho papão, completamente desconhecido, temido e temeroso). Sim, leram bem, à mesa dum café. Nem foi necessário juntar 2 mesas. Uma mesa e 4 cadeiras, sendo uma destas ocupadas pelas malas das senhoras, e as outras três pelos rabiosques dos resistentes, ou melhor dos teimosos, que por uma, outra ou aquela razão teimam em manter esta associação de pais. Em cima da mesa, as duas garrafas e o prato, eram soberanas. De papelada, um relatório para levar de TPC e uns quantos envelopes. Já se depreende a quantidade de trabalho que por aqui vai. Existir, existe, mas se a papelada falasse… Os assuntos, os pontos do dia, a ordem de trabalho: corriqueiros, os mesmos de sempre. No fim, aquilo em que se traduz, na prática, uma reunião da associação de pais deste agrupamento.

Para além desta reunião:

Somos Intermediários de transferências bancárias do governo para a autarquia para os prestadores de serviços;

somos responsáveis pela qualidade duma hora diária dispendida pelos nossos filhos na escola sem que a nós chegue qualquer feedback quer por parte dos filhos (a não ser dos nossos, leia-se, no meu caso do meu), pais, auxiliares, professores e empresa contratada;

somos relatores verbais, uns aos outros, da presença em algumas dezenas de reuniões do conselho geral para o processo eleitoral da direcção da escola e demais órgãos;

somos relatores verbais, uns aos outros, da presença em reuniões do conselho geral, cujo número se contará pelos dedos duma mão, para a apreciação da realidade escolar;

somos fiéis depositários de livros que teimam em ter que passar de mão duns anos para os outros a fim de cumprirem a missão para que foram impressos;

somos os anfitriões de pais interessados que nos procuram sendo que no ano passado, não tínhamos mãos a medir com a impressionante quantidade de UMA mãe curiosa e, talvez tenha que se escrever, corajosa que nos procurou, demonstrando da quantidade de pais iluminados que existem neste agrupamento;

somos dinamizadores de reuniões em que se esperaria casa cheia com cerca de 1500 pessoas e afinal cabemos todos numa sala ocupando 15 lugares, ficando sempre a pensar se por ter sido convocada a uma sexta feira dum fim de semana prolongado, ou se, por exemplo, por não termos chamado as pessoas para assistir a um jogo da selecção num écran gigante;

somos incapazes de dar seguimento a diversos assuntos, quer por impossibilidade de coordenação dos horários dos diversos intervenientes, quer por vontade política, quer por os assuntos deixarem de ser “novidade” e tema de diálogo entre os representantes dos pais e os profissionais com responsabilidades dadas as inúmeras conversas de corredor, com ou sem efeitos práticos mas sem a necessária formalidade de actos de resolução e / ou empenho;

somos invisíveis para os professores pois seria de esperar que durante um ano lectivo lançassem algum desafio concreto, ou à associação, ou aos pais em concreto da turma à qual leccionam; se bem que em abono da verdade poderiam ficar a ver navios…;

somos moços de recados aos pais sobre a contratação duma empresa fiscalizadora da qualidade da comida dos nossos filhos sem que no final do ano lectivo nos digam “AI, UI” sobre o que eles comeram ou deixaram de comer;

e, por fim, somos poucos, muito menos do que os nomes constantes nos membros dos corpos sociais, mas somos e estamos.

Das reuniões do conselho geral: dado o espírito pragmático e assumindo que cada reunião demorou 1 hora cada, o que nem de perto chega à realidade, dariam dezenas horas de trabalho, a multiplicar pelo número de docentes … como já disseram algures: é só fazer as contas! Mesmo que estas sejam realizadas fora da hora de expediente, são horas de preparação de aulas e enriquecimento pessoal dos professores (ou inclusive de relaxamento depois dum dia de trabalho) para um processo extremamente burocrático.

Da empresa prestadora de serviços das AECs, e tendo ainda o relatório deste ano para ler, seria bom ter feedback em tempo real do que se passa em cada sala de aula, já que foi o destino que o sistema decidiu que os pais poderiam dar aos seus filhos enquanto não colocassem a chave na porta.

Da participação dos pais, sócios ou não sócios, membros ou não membros dos corpos sociais da associação, só me apraz perguntar a mim mesmo: como será que as outras associações o conseguem, ou melhor que fazem de diferente os pais que se chegaram à frente para os seus pares os seguirem, ou melhor ainda, que terão de diferentes os pais desses agrupamentos. E somente posso fazer essa pergunta a mim mesmo, porque cada um sabe de si.

Dos professores: essa classe lutadora e/ou refilona, consoante a perspectiva (olhar de dentro para fora ou de fora para dentro), que como em todo o lado há os eficientes, os criativos, os desinteressados, os deixa andar, os inovadores e porque não os sonhadores, alcançariam novas perspectivas de sucesso com um vislumbre de interesse na comunidade parental como um todo, e não somente e esporadicamente, individualmente. Estes senhores e senhoras que acumulam às suas tarefas lectivas, a formação pedagógica prática para funcionarem como “bombeiros emocionais” aos filhos, sendo que na maior parte das vezes o alvo deveriam ser os pais, para funcionarem como “pacificadores destacados da ONU em território escolar”, etc etc poderão precisar que nos tornemos, que os pais e encarregados de educação nos tornemos:

Agentes activos na preparação dos nossos filhos para a vida

Agentes activos na educação (escolar) dos nossos filhos, sim porque a outra “educação” tem lugar a ensinamento em casa

Agentes activos no processo educativo, lúdico ou festivo dos nossos filhos.

Agentes activos na ajuda de resolução de situações escolares do domínio parental.

Onde ficam afinal as aranhas no meio deste texto já que o título as invocam? Para já, na sala da associação de pais. Dada a diminuta actividade que por lá ocorre, fizeram-nos o favor de tomar conta da sala. Gostaria de pensar que um dia, para bem das crianças, em harmonia, mas não deixando de se dizer o que é necessário ser dito para que se possa solucionar e ou melhorar, reclamemos a sala para nós, os pais e encarregados de educação. Prometendo deixar que elas a povoem, em confraternização amigável, acima da altura das nossas cabeças. Elas lá continuarão, até ao retomar do próximo ano lectivo, gozando o verão tal e qual todas as crianças deste agrupamento.

Boas férias! Bom descanso! Bom verão! E que as crianças voltem cheios de vontade de aprender!
José Condeço
Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APEEAEB